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Os Problemas da Tradução (Os Romances Russos)


     Existe a ideia de que uma boa tradução é aquela onde o leitor não consegue discernir qual a língua original em que o livro foi escrito. Os tradutores defensores desta ideia chegam ao ponto de substituir os nomes das personagens por transliterações aproximadas, onde o resultado final é um nome próprio bem português. Ora, tratando eu do caso das traduções de obras iterarias russas para a língua portuguesa, cabe a mim dar a minha opinião, não só como estudante da língua, mas também como leitora, sobre esses métodos, por mim considerados impróprios e antiquados.

     Passaram por minhas mãos clássicos prosaicos escritos por Tólstoi, Dostoiévsky, Turguéniev, entre outros. Se não fizesse parte do meu conhecimento quais as boas e escassas versões em português dessas mesmas obras, faria eu parte do tão extenso grupo de portugueses que vê toda a literatura russa como algo enfadonho, confuso e pesado. A razão deste tipo de adjectivação pela maioria reside no facto de, até bem pouco tempo, serem inexistentes as traduções directas do russo. Custosamente encontro alguma lógica na técnica de traduzir sobre uma tradução. Pois se então se diz, que já com uma simples tradução directa a mensagem e o lirismo pelo caminho se perdem, não vejo o porquê de aumentar ainda mais este problema financiando ainda hoje uma tradução de Ánna Karénina do francês.

     Se admiro muito o Sr. Saramago, como tão revolucionário escritor que é, resta-me declarar que como tradutor pouco mérito tem. Começo por apontar o quão desastrado foi a decisão de traduzir os nomes das personagens na sua tradução da obra acima apontada. Ao fim da terceira página, tem o leitor a impressão de que está perante a estória da família Silva a viver em Moscovo. Não há razões para traduzir os nomes. Porquê privar o leitor da satisfação de uma maior aproximação, que a não tradução dos nomes dá? É descabido traduzir o nome Serguéi, que no nosso registo civil se encontra, para Sérgio. A meu ver, os nomes não têm tradução, e em casos de nomes escritos em alfabetos diferentes ao nosso latino, contentemo-nos então com uma transliteração. Assumo que difícil é a tarefa de traduzir a simplicidade estrutural da língua russa. Mas quando em frente a este exemplar traduzido pelo nosso Nobel, não encontro sinais de uma prosa naturalmente simples, mas de uma confusão literária cheia de visíveis floreados dignos da língua francesa, que no português não funcionam. Uma tradução deve respirar a cultura, a história e a sociedade do país de raiz do livro. Existe uma passagem a meio do grande romance trágico de Tólstoi, onde um personagem descreve prolongadamente os campos, os ares e funcionamento dos kolhoz. Quando má traduzida, a descrição é imensamente confusa e deveras entediante. O génio de Tólstoi perde-se pelo caminho. A certa altura, não se percebe quem está a descrever, nem o que está a ser descrito.

     Acontece porém, que há poucos meses atrás, um senhor chamado António Pescada traduziu esta mesma obra directamente do russo. O tradutor é licenciado pelo Conservatório de Letras de Moscovo em Língua e Literatura Russas. Numa entrevista ao DN, António Pescada mostrou o seu descontentamento quanto ao diminuto número de boas traduções dos clássicos russos. Foi esta a grande razão porque pôs ele mãos a obra. A passagem da qual falei foi a que mais trabalho deu a Pescada e só com muito esforço, criatividade e re-revisões ficou, e não totalmente, ele contente. Lembro-me de concordar com uma passagem na sua entrevista onde afirmava que se um romance é russo, deve-se entender que é russo. Porquê disfarçar a naturalidade do romance? Ainda para mais no nosso mundo de hoje onde a globalização está mais que presente. António Pescada precisou à volta de um ano para concluir a sua tradução. Chego eu à conclusão que falta de empenho, aliada a prazos apertados e maus financiamentos sãos os motivos que levam a muitos traduzir de forma incorrecta. Se Saramago repudiou as notas de rodapé à boa velha maneira, Pescada utilizou-as sempre que um termo, que chamava por explicação, na narrativa aflorava. Os apologistas da rejeição destas notas defendem a sua posição, argumentado que estas indicações quebram a leitura do livro. Eu digo que nem toda a gente tem cultura geral suficiente para entender o que kolhoz ou kvass quer dizer. E significa isso que essas pessoas não têm também o direito de entender na íntegra um romance russo? Não quebrará mais a leitura a ida a uma enciclopédia aquando o não entendimento de termos relacionados com a história e cultura russa? Ou pior, que por simples inércia, a leitura essas pessoas prossigam sem entenderam o que estão a ler?

     A jeito de esclarecimento exporei um pequeno exemplo de um caso de má tradução. Algures no final do romance de Dostoievski "O Jogador" traduzida do francês por Delfim de Brito encontra-se a seguinte passagem: "Beijámo-nos cordialmente e Mr. Astley foi-se embora.". A última tradução desta obra por António Pescada é um pouco diferente: "Abraçámo-nos calorosamente e Mister Astley foi-se embora.". É de sublinhar que as duas personagens em questão são dois homens. Quando tomei conhecimento da tradução de Delfim de Brito, fiquei chocadíssima, pois nunca imaginei que Mister Astley e o personagem principal da narrativa se poderiam beijar. Vejamos, a estória passa-se a meados do século XIX, e o erro deverá provir da confusão do tradutor francês, que vendo os líderes comunistas do século XX se cumprimentarem por meio de um beijo, pensou talvez que desde sempre se cumprimentam os homens na Rússia desta forma. O verbo utilizado em russo não é o beijar, mas sim abraçar: Обнимать.

     Resta-me congratular os fabulosos tradutores que são António Pescada, Nina Guerra e Filipe Guerra. Ao primeiro, principalmente, por ter disponibilizado ao público português uma óptima tradução da belíssima obra de Bulgákov que é "Margarita e o Mestre". Aos outros dois a fantástica tradução de "Guerra e Paz" de Lév Tólstoi em quatro volumes, pela qual foram já premiados.  
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:iconplatinumx:
PlatinumX Featured By Owner Nov 4, 2012  Hobbyist Photographer
Como tradutor, e aluno de Tradução da Faculdade de Letras, vejo-me a concordar em bastantes aspectos deste texto. Seuma obra é produzida em terras foras da nossa. então há que demonstrá-lo na própria tradução do texto. Há que dar aos leitores a sensação que estão a interiorizar, a imaginar e a "moer" conceitos, culturas e paisagens que lhe são estrangeiras. Conceitos esses que de muito, ou pouco, conhecem, e que com a leitura da obra podem aprender algo novo e excitante sobre outras nacionalidades e culturas.
Num mundo, em que cada vez mais a globalização de culturas e a multiculturização é cada vez mais perceptível, e cada vez mais visível, é com teimosia que estas traduções domesticantes persistem. Concordo que há de facto obras que necessitam de adaptações domesticantes (ex: literatura infantil),contudo a domesticação de uma obra, para um público adulto, é uma acção que sugere que as editoras duvidam da inteligência dos seus leitores. O tradutor que "seduz" o leitor a outra cultura e outras formas de pensamento, esse sim, é um bom tradutor e é essa a vertente que deveria ser implementada na tradução da maioria das grandes obras literárias.
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:iconantonioeduardom:
antonioeduardom Featured By Owner Nov 14, 2011
Amanhã, dia 15 de Novembro, às 18h00, tem lugar no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da UL uma conversa sobre a tradução e a edição da Literatura Russa em Portugal, com a participação do tradutor António Pescada e do editor Francisco Vale ('Relógio d'Água'), e moderada por António Eduardo Mendonça. Trata-se de uma organização do Leitorado de Língua e Cultura Russas da FLUL, com o patrocínio da Agência Federal da Rússia para a Cooperação Internacional “Rossotrudnitchestvo”.
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:iconritslong:
RitsLong Featured By Owner Dec 11, 2009
Artigo muito bom!

Aproveito para acrescentar que já era hora de haver uma universidade em portugal capaz de pôr de pé um curso de tradução do russo. É uma tristeza as duas grandes universidades em Lisboa oferecerem mestrados em tradução somente a partir de 4 línguas.
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:iconcolette-doucet:
Colette-Doucet Featured By Owner Feb 24, 2010
Obrigada))
Concordo que o ensino de línguas em Portugal, e principalmente aquele direccionado para a tradução, sempre foi deficiente. Agora com a implementação do processo de bolonha - ainda mais. Não sendo as Letras um dos negócios mais rentáveis, o governo e grandes empresas não se interessam em financia-lo. Há que unir e reivindicar direitos.
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:iconpolskiwojciechowski:
Polskiwojciechowski Featured By Owner Feb 10, 2008   Photographer
Este ensaio é digno de ser lido!
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:iconcolette-doucet:
Colette-Doucet Featured By Owner Feb 10, 2008
Para uma hora de trabalho não está mal, não é verdade?
São então as exigências da brejeirinha: no máximo duas páginas/prazo limite: final de semestre. Confesso que me sinto por vezes picada pelo grande "bicho vesperiano" (tipicamente português), mas estava ciente das minhas capacidades e só por isso deixei para a última das últimas horas. Até lá andava a entreter a Frau Nunes com as estórias do Bibo e traduções sobre o hino europeo (ficou bonita a tradução, não? Temos de nos juntar para outra!).

P.s.: Que é feito da nossa tradução do poema alemão?
[link].: Para o ano, estando a nós entregue as jornadas, convidamos o Pescada!
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:iconcolette-doucet:
Colette-Doucet Featured By Owner Feb 10, 2008
Eu não coloquei link algum. Porém o DA assumiu que sim. Está sempre a acontecer-me coisas destas aquando o envio de mensagens para ti!
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February 6, 2008
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